Patinetes e bicicletas compartilhadas no Brasil, solução ou problema?

Patinetes e bicicletas compartilhadas no Brasil, solução ou problema?

Entenda como funciona e o que pode mudar com a chegada dessa inovação

O mundo precisa de novas soluções de transporte e mobilidade, com mais carros parados em congestionamentos nas ruas em horários de pico, é preciso pensar em maneiras de continuarmos nos locomovendo com mais agilidade.

Isso gera um mercado para empresas que conseguem pensar em maneiras criativas de resolver esse problema, como foi o caso da Grin, Yellow, Scoo, e outras empresas que alugam bicicletas e até patinetes em grandes cidades exigindo apenas um aplicativo e um cartão de crédito.


Como funciona

Se as bikes ou scooters dockless (sem estação) ainda não chegaram na sua cidade e você não sabe como funcionam, é assim. Empresas autorizadas pela prefeitura disponibilizam patinetes e bicicletas nas ruas da cidade para as pessoas utilizarem.

Idealizadores da ideia ressaltam que essa é uma solução não poluente e importante para mobilidade

Elas têm regiões determinadas para a circulação e ficam expostas nas ruas. Elas são bloqueadas por padrão, para desbloquear e sair pedalando, é necessário abrir uma conta em um aplicativo da empresa e cadastrar um cartão de crédito. 


Um rapaz desbloqueia a bicicleta através do aplicativo - Fonte: Divulgação/YoBike

Basta achar uma bike ou patinete, pagar com o cartão de crédito no aplicativo, receber o código de desbloqueio e desbloquear veículo. Os preços variam, mas no geral o preço para utilizar patinete é maior. No caso da Yellow aqui em Florianópolis, a bicicleta custa R$ 2,00 a cada 20 minutos e o patinete custa R$ 3,00 para o desbloqueio e mais 0,50 a cada minuto.

A proposta é interessante, mas...

Tudo bem, a proposta já chegou aqui e deve se espalhar pelo país, mas isso gera uma série de dúvidas. A utilização é simplificada, qualquer pessoa aprende rapidamente como desbloquear e sair andando. Mas quais são as reais vantagens e preocupações com essa novidade?

Como fica a segurança no trânsito? Em casos de acidente, a empresa tem alguma responsabilidade? O sistema funciona? Ninguém quebra ou rouba essas bikes e patinetes? Será que isso vai dar certo no Brasil?


A solução

O Brasil não é um excelente exemplo de planejamento em mobilidade urbana e você com certeza sabe disso tão bem quanto eu. Moro em Florianópolis, uma cidade com apenas uma ponte de saída e outra de entrada. A cidade pára no fim de tarde.

Qualquer tipo de alternativa ao ônibus parece uma boa. As ruas no centro da cidade daqui são estreitas, um trecho que você levaria caminhando 5 minutos, pode levar uma eternidade de carro por causa do grande fluxo de veículos no horário de pico.

Pensando nisso, nesses trechos curtos dentro da cidade, os patinetes e bicicletas são muito interessantes.


Ciclista na Indonésia em horário de pico - Imagem: REUTERS/Supri. Via TotallyCoolPix

A maioria concorda: nosso país precisa de novas soluções para mobilidade urbana

É comum vermos muitas pessoas no Brasil escolherem utilizar o carro para se deslocar distâncias curtas. Trajetos a pé que levariam pouco mais de 15 minutos para serem percorridos são feitos de carro. Com a possibilidade de utilizar uma bike ou um patinete hora ou outra, você consegue encurtar o tempo desse trecho sem precisar tirar o carro da garagem.

Mas o preço não é tão interessante no Brasil, patinetes da Yellow aqui em Florianópolis custam R$ 3,00 para os três primeiros minutos de uso e depois mais R$ 0,50 para cada minuto seguinte.

Para trechos pequenos, pode ser interessante, mas tem que ser um uso muito esporádico para valer a pena.


Andar de bicicleta tem uma série de vantagens para o nosso organismo - Fonte traduzida de: CD PHP/#bike4health
 

São R$ 8,00 por 10 minutos. Pensando nisso, pode ser muito mais uma opção de lazer do que uma solução para mobilidade, por esse preço, dependendo do horário e localização, você paga um Uber por um bom deslocamento. Já com as bikes, pode valer mais a pena, já que o preço por até 40 minutos de pedalada por aqui é de R$ 4,00.

O problema de aplicativos como Uber e 99 está no horário de pico e o fato de terem tarifa variável, você pode ficar na fila no horário de pico e ainda pagar mais caro por isso.

Mas, se você pretende adotar essa prática para o dia a dia, pode valer mais a pena encarar uma prestação de uma boa bicicleta. E aí começam os poréns.


O problema

Digamos que o serviço seja bem recebido por um grande número de pessoas. Começam a surgir novas empresas com seus próprios preços, patinetes e bicicletas.

A disputa de mercado fica acirrada, o preço cai, o raio de cobertura do serviço oferecido aumenta e as pessoas resolvem deixar o carro em casa. O que acontece? 

E como fica se todo mundo decide utilizar bicicletas ou patinetes?

Difícil dizer como ficaria caso acontecesse no Brasil, mas na China a situação ficou preocupante. As bicicletas compartilhadas e sem estação (dockless) chegaram antes lá.

Os chineses acharam essa uma ideia tão genial que em poucos meses milhões de pessoas estavam pedalando pelas ruas das principais cidades do país. Rapidamente, o veículo compartilhado passou a fazer parte do dia a dia das pessoas.

Infelizmente, lá a expansão desse negócio causou alguns danos.


Isso não é uma floresta, mas sim uma pilha de bicicletas na China

Quando as primeiras empresas surgiram no país asiático, outras rapidamente entraram na onda para tentar abocanhar uma fatia desse mercado, o que acabou em uma grande bagunça.

O tempo de adesão das pessoas ao serviço foi tão rápido que empresas passaram a oferecer o serviço como bem entendiam.

Os motivos para o descontrole do número de bicicletas e o crescimento no número de lixões e depósitos delas são diversos. Entre eles podemos citar:

1 - A forte competição no mercado, inclusive com relatos de empresas tentando sabotar umas às outras;
2 - Abuso de pessoas estacionando as bicicletas dentro de suas próprias casas ou privatizando elas;
3 - Vandalismo com as bicicletas, muitas encontradas em rios ou simplesmente jogadas quebradas pela cidade;

Com muitas dessas bicicletas quebradas em vias públicas, interrompendo fluxo de pessoas em calçadas ou até mesmo em ruas, a polícia é acionada para recolhê-las. Isso deu origem aos lixões de bicicletas apreendidas pela polícia.

"Existem hoje mais de 16 milhões de bicicletas compartilhadas nas ruas das cidades chinesas, graças a uma feroz batalha por participação de mercado em mais de 70 empresas - The NY Times"

Fora isso, ainda há o pátio das próprias empresas. Como a maioria não vale o conserto por causa da tecnologia, grande parte é jogada no lixo.

As imagens são lindas e ao mesmo tempo aterrorizantes, nos fazendo questionar o porquê de um volume tão alto de bicicletas abandonadas. Algo que ajuda a entender bem o que aconteceu é o fator China.

Lá as coisas funcionam um pouco diferente, a começar pelo tamanho da população.

 

Para ter uma ideia, a diferença entre o número de pessoas da China para os Estados Unidos é de cerca de 1 bilhão. Aqui no Brasil somos cerca de 209 milhões, de acordo com a estimativa de 2017.

Um outro ponto a ser comentado, é que nesse negócio, a rua é a vitrine das empresas. Depois de cumprir o mínimo legal, fabricar bicicletas e colocá-las na rua é a maneira mais simples de fazer com que o público conheça seu serviço.

De toda forma, quando você pára pra pensar que são bilhões de possíveis clientes, o descarte de produtos não se torna tão absurdo.

O governo chinês passou a ser mais rígido na regulamentação, algumas startups fecharam, outras empresas se fundiram e hoje as empresas continuam por lá. A reestruturação está acontecendo e devem chegar a uma solução saudável com o passar dos anos.

E se na China a adoção foi rápida, na Austrália está sendo lenta e as pessoas estão apresentando resistência. Bicicletas estão sendo vandalizadas, abandonadas e jogadas em rios.


Bicicleta compartilhada abandonada em um rio na Austrália

Esta reportagem da BBC mostra como as bikes podem ter pouca aceitação no início para um país. No Brasil, ainda não percebi um grande volume de rejeição, as bikes e patinetes estão circulando, podem não ser utilizadas mas não vemos uma grande rejeição.

O que dá para perceber é que esse, em específico, parece ser um mercado que precisa de regras um pouco mais rígidas para que todos ganhem, as empresas e os usuários.

Parece um campo de tulipas, mas são bicicletas na China

O mercado não pode ser fechado para novas empresas, porque se isso acontecer o valor dos transportes vai ficar muito elevado por falta de concorrência. E, por outro lado, também não pode ser completamente aberto, pra não virar bagunça.

O ideal é estabelecer critérios para que as empresas possam se candidatar e atuar nas cidades. Nos Estados Unidos, em maio de 2018, diversas empresas de bikes compartilhadas foram banidas de São Francisco e a cidade criou um processo para a obtenção de uma licença, limitando o acesso a só duas empresas. 

Outro problema é o fato de as cidades não se preparem para esse tipo de mudança

Além disso, a cidades precisam se preparar para receber outros tipos de veículos. As ciclofaixas são praticamente inexistentes e muitos motoristas simplesmente não respeitam ciclistas.

Todos nós deveríamos utilizar mais bicicleta, é saudável, tem um bom deslocamento por tempo, custa muito menos que carro e moto e você não fica preso no trânsito.

A questão é que em alguns casos as pessoas simplesmente não aderem a algum movimento sem que alguém organize isso para elas, algo que essas empresas tiveram a sacada de fazer.


Bicicleta compartilhada da empresa Mobike vandalizada em Manchester - Fotografia: Canal and River Trust/PA

Na Inglaterra, as bicicletas também foram vandalizadas e furtadas. Empresas que atuavam por lá reduziram a área de serviço e algumas passaram a disponibilizar bicicletas apenas na região das universidades

A comercialização de bicicletas compartilhadas não é uma alternativa simples de ser administrada e tem sua eficiência questionada por muita gente.

A Inglaterra também passou por problemas, com a chegada de empresas como a Mobike por lá, ficou claro que qualquer país pode ter dificuldades para implementar isso. Londres e Manchester registraram altos números de furtos de bicicletas.

Uma das empresas atuante no mercado inglês, a Yobike, passou a funcionar apenas em uma região nobre perto das universidades e com estações fixas em lugares específicos escolhidos por ela. E não é difícil entender o porquê. Segundo a Mobike, em algumas regiões, as bikes eram colocadas e em pouco tempo elas simplesmente sumiam.

Com bicicletas jogadas pelas ruas, a cidade começa a ficar com uma imagem desagradável

Segundo o The Guardian, os principais responsáveis são jovens adolescentes, integrantes de gangues que descobriram que não é tão difícil driblar o localizador GPS que ficam nesses veículos. Além de ter manchado a imagem dos ingleses, muitas cidades do país perderam a oportunidade de pedalar. 

Em setembro do ano passado, a Mobike parou de oferecer seus serviços em Manchester, foi a primeira vez que a empresa saiu de uma cidade por comportamentos antissociais, como vandalismo e furto.


Bike dockless da Yellow colocada à venda na OLX, com direito a número de contato do vendedor

Aqui no Brasil, começam a aparecer os problemas com furtos e roubos, mas ainda são poucos

Quando lançamos um vídeo comentando o problema na China, diversas pessoas comentaram que aqui no país o maior problema seria o de roubos e furtos. Bom, eles estão acontecendo, mas abaixo do que o esperado. A Yellow diz que essas violações não são uma preocupação para ela e que isso não deve impactar seus negócios.

Segundo a empresa, as bicicletas utilizam peças únicas e que não se adaptam a outros modelos. Além disso, são fáceis de serem recuperadas por terem GPS. Outro ponto que ajuda a mantê-las, é o fato de serem guardadas pelos "Guardiões Yellow", funcionários da empresa que repõem as bikes nos lugares e a manutenção.

"Estamos trabalhando com o poder público para que dê certo" - Eduardo Musa, CEO da Yellow à Época Negócios

Eduardo Musa, presidente da Caloi de 1999 a 2016 e atual CEO da Yellow, disse à Época Negócios que aqui no Brasil o modo como esse negócio funciona é outro e que precisaram estudar o que deu errado lá fora antes de fazer a implementação dele aqui.

Um dos grandes problemas da falha dessa inovação está na imagem da cidade. Como as bikes começam a ficar jogadas pelos cantos, em rios, ou abandonadas, as praças e ruas começam a ficar com um aspecto deplorável.

Para compartilhar isso, um perfil no Twitter foi criado entitulado "Bike Dockless Fail".

Países como Portugal, França e Estados Unidos também passam por problemas e buscam harmonia na demanda.

Fora as dificuldades em se estabelecer, tem ainda os problemas de qualquer empresa, aqueles que são resultados das relações entre quem oferece o produto e o consumidor. No Reclame Aqui, site que reúne empresas e consumidores para resolverem problemas no serviço, podemos encontrar alguns relatos que nos ajudam a ter uma visão mais ampla desse produto.

Confira as páginas de reclamações
das empresas
 Grin e Yellow no Reclame Aqui

Atualmente, nota da Yellow no Reclame Aqui é 8.0 e a da Grin é 9.3, e as reclamações registradas são bastante semelhantes. A que mais aparece é a de cobrança indevida, alguém desbloqueia o veículo, percorre uma distância e não consegue encerrar a corrida. Ou há algum erro no sistema em que a pessoa consegue bloquear a bike ou patinete mas a cobrança continua aumentando.


Desbloqueio de patinete Grin com aplicativo através do QR Code - fonte: divulgação

Como as bicicletas têm GPS, as empresas conseguem checar e devolver o valor para as pessoas prejudicadas. Há ainda pessoas reclamando de acidentes e da falta de bicicletas disponíveis em algumas regiões, o que não necessariamente é falha da empresa.

Para a empresa Grin, achei uma reclamação de patinete com freio danificado, que foi respondido com a empresa mencionando a possibilidade de acionar um seguro, um cuidado importante tomado pela empresa e que dá mais segurança para o usuário.


E o que diz a legislação

As empresas se baseiam na Resolução 465 do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) para a adequação dos transportes às ruas brasileiras. Na lei, há uma série de determinações.

Patinetes devem circular na velocidade máxima de 6 km/h em áreas de circulação de pedestres e com velocidade máxima de 20 km/h em ciclovias e ciclo faixas. Entretanto, patinetes Grin e Yellow são capazes de atingir até cerca de 24 km/h.


Uma garota utilizando patinete Grin - fonte: divulgação

No caso das bikes motorizadas, não podem ter potência superior a 350 Watts, com velocidade máxima de 25 km/h. Além disso, ainda é exigido: indicador de velocidade; campainha; sinalização noturna dianteira, traseira e lateral; espelhos retrovisores em ambos os lados; pneus em condições mínimas de segurança.

A prefeitura de Vila Velha retirou os patinetes da Yellow das ruas e alegou que não havia permissão para circulação dos veículos

Recentemente, um problema legal envolvendo a Yellow chamou atenção. Em Vila Velha ES, a empresa teve seus patinetes recolhidos da rua pela prefeitura, o que levou ela a sair da cidade e destinar sua frota de patinetes à Vitória. Segundo a Yellow, a regulamentação já havia sido feita com a prefeitura e foi surpreendida quando seus patinetes começaram a ser apreendidos.

Já a prefeitura diz que não, o processo de regulamentação ainda estava para ser averiguado. A companhia comentou ainda que não precisa de aprovação do município para atuar, já que quem regula essa questão é o Governo Federal.

Para tratar de algumas dessas questões e problemas, tentamos entrar em contato com uma empresa que oferece esse tipo de serviço, a Grin, que atua com patinetes aqui em Florianópolis e que se fundiu com a Yellow recentemente. Juntas, as duas empresas devem dominar grande parte do mercado nacional desse modelo de negócio.


Um rapaz utilizando patinete Grin com capacete - fonte: divulgação

Não obtivemos respostas das perguntas fundamentais que foram enviadas. Segundo a pessoa que me atendeu, nosso contato foi enviado ao time de assessoria da empresa. Como não responderam em alguns dias, enviei outro e-mail. O mesmo atendente respondeu que "se eles não retornaram, acredito que no momento não exista o interesse em responder à esta pesquisa."

Yellow e Grin se juntam e da união das duas irá nascer a Grow, com uma frota de 135 mil patinetes elétricos e bikes compartilhadas

Em um e-mail seguinte, após eu ter dito que era uma pena a Grin não estar interessada, o atendente disse que na verdade estão com um volume muito grande de trabalho devido à fusão e que não conseguiram destinar alguém para responder a este artigo por causa disso.

Caso alguma dessas empresas com quem entramos em contato responda, atualizaremos este artigo. Mas mesmo sem as respostas dessas empresas, acredito que este artigo já traz um bom panorama e pode nos dar uma boa compreensão. E você, o que acha disso tudo? Problema ou solução?

Fonte: Quora, BBC, The New York Times, Reuters